Estratégia Gestão e Alta Performance

O que faremos com o tempo que a inteligência artificial nos devolver?

NETIV 18 de set. de 2026 5 min de leitura
O que faremos com o tempo que a inteligência artificial nos devolver?

Talvez a maior transformação da IA não esteja apenas no que conseguiremos produzir, mas no que poderemos voltar a viver.

Há alguns dias, enquanto refletia sobre inteligência artificial, percebi que grande parte das conversas sobre o tema começa quase sempre pela mesma pergunta:

A inteligência artificial vai tirar nossos empregos?

Possivelmente, algumas profissões desaparecerão, mas Isso não seria uma novidade na história.

Ao longo das últimas décadas, vimos atividades serem profundamente transformadas ou simplesmente deixarem de existir. Ao mesmo tempo, surgiram profissões que há alguns anos sequer imaginávamos.

A tecnologia sempre transformou o trabalho.

Talvez, então, a pergunta mais interessante não seja apenas o que a inteligência artificial vai tirar de nós. Mas, O que ela poderá nos devolver?

E uma das respostas pode ser algo que se tornou extremamente valioso em nossas vidas:

tempo.

Quando horas se transformam em minutos

Eu já percebo isso no meu próprio trabalho.

Uso inteligência artificial para apoiar análises, trabalhar com planilhas mais complexas, estruturar planejamentos, preparar relatórios, pesquisar informações e realizar cotações.

Atividades que antes poderiam consumir horas hoje, em determinadas situações, são realizadas em minutos.

E isso não é apenas uma percepção individual.

Um estudo conduzido por pesquisadores de Stanford e MIT com 5.179 profissionais de atendimento encontrou aumento médio de 14% na produtividade com o auxílio de IA generativa. O impacto foi ainda maior entre profissionais menos experientes.

A capacidade de produzir mais em menos tempo já é uma realidade.

Mas é justamente aí que surge outra pergunta:

  • O que faremos com o tempo economizado?
  • Vamos simplesmente preenchê-lo com mais tarefas?

O risco de transformar toda eficiência em mais trabalho

Durante décadas, utilizamos tecnologia para aumentar produtividade: fizemos mais, mais rápido e em maior escala.

Agora temos diante de nós uma tecnologia capaz de ampliar ainda mais essa velocidade, e talvez exista aqui uma escolha importante:

Uma empresa que consegue economizar 20% do tempo de determinada atividade pode simplesmente preencher esses 20% com mais trabalho, ou pode utilizar parte desse ganho para criar algo diferente: tempo para pensar, inovar, para desenvolver novas habilidades, conversar com um cliente, melhorar as relações entre as áreas.Talvez até para tomar um café sem a sensação de que cada minuto precisa produzir alguma coisa.

Isso não significa abandonar a produtividade.

Significa compreender que bem-estar e resultado não precisam ocupar lados opostos da gestão.

Uma ampla meta-análise envolvendo 339 estudos, cerca de 1,9 milhão de trabalhadores e mais de 82 mil unidades de negócio encontrou associação positiva entre bem-estar dos funcionários, produtividade, fidelidade dos clientes e lucratividade — e associação negativa com rotatividade.

Talvez uma das oportunidades da IA seja justamente permitir que empresas repensem o que fazem com o tempo das pessoas.

Experiência não ficou obsoleta

Existe outro aspecto dessa transformação que me interessa particularmente.

Ouço pessoas de 50, 60 anos ou mais dizerem: “Isso não é mais para mim.”

Eu discordo.A minha geração talvez seja uma das que mais atravessaram transformações tecnológicas.

Eu nasci em um lugar onde sequer havia energia elétrica, depois vieram a televisão, computadores, internet, pagers, celulares e tantas outras tecnologias.

Agora estamos diante da inteligência artificial. Por que parar justamente aqui?

Para quem já vivenciou tantas mudanças e acumulou tanta experiência, a IA pode ser uma enorme aliada.

Pode facilitar pesquisas, ajudar com tarefas burocráticas, organizar informações, apoiar análises e reduzir o tempo gasto em atividades que se tornaram mais difíceis ou simplesmente cansativas.

Mas existe algo ainda mais interessante.

A experiência pode ganhar um novo valor na era da IA.

Porque utilizar inteligência artificial não significa simplesmente saber apertar um botão.

É preciso saber perguntar.

E, talvez mais importante, é preciso saber avaliar a resposta.

Em uma analogia bem simples: Imagine alguém que nunca fez um bolo.

A IA pode fornecer uma receita completa.Mas, se houver algo incoerente naquela receita, será que essa pessoa perceberá?

Quem possui conhecimento e experiência provavelmente terá mais condições de questionar.

“Essa quantidade faz sentido?”

“Não está faltando uma etapa?”

“Existe outra maneira de fazer?”

A inteligência artificial pode oferecer respostas extraordinárias.

Mas o repertório continua sendo necessário para reconhecer uma boa resposta e também para desconfiar de uma resposta ruim.

Curiosamente, um estudo com profissionais de atendimento encontrou os maiores ganhos justamente entre trabalhadores menos experientes, sugerindo que a IA pode ajudar a disseminar parte do conhecimento e das melhores práticas acumuladas pelos mais experientes.

Talvez experiência e inteligência artificial não sejam concorrentes e sim sejam complementares.

Nem tudo precisa ser terceirizado

Também existe um risco.

Ao longo da história, deixamos de exercitar determinadas habilidades porque a tecnologia passou a realizá-las por nós.

Isso não é necessariamente ruim.

Não precisamos preservar uma tarefa simplesmente porque um dia ela foi necessária.

Mas talvez precisemos aprender a escolher conscientemente o que queremos delegar e o que queremos continuar exercitando.

A inteligência artificial pode nos ajudar a calcular, pesquisar, organizar, sintetizar, comparar e produzir.

Mas existem dimensões profundamente humanas que continuam tendo enorme valor:

  • Criatividade.
  • Relacionamento.
  • Escuta.
  • Acolhimento.
  • Conexão
  • Empatia.
  • Presença.

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, mostra justamente essa aparente contradição: enquanto IA, big data e alfabetização tecnológica estão entre as competências que mais crescem em importância, pensamento criativo, resiliência, liderança, curiosidade e aprendizagem contínua também aparecem entre as habilidades cada vez mais valorizadas. Empatia e escuta ativa permanecem entre as competências centrais apontadas pelos empregadores.

Quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais precisamos compreender aquilo que desejamos preservar do ser humano.

Em terra de robô, quem tem coração é rei

Há uma frase de que gosto muito:

“Em terra de robô, quem tem coração é rei.”

Talvez ela nunca tenha feito tanto sentido, como agora. Não acredito que precisamos escolher entre tecnologia e humanidade, mas acredito justamente no contrário.

Podemos usar uma para recuperar espaço para a outra.

Se a inteligência artificial nos economizar uma hora, o que faremos com ela?

Podemos transformá-la imediatamente em mais uma hora de produtividade.

Mas também podemos usar parte desse tempo para estudar, criar, conversar, estar com quem amamos, observar a natureza, meditar, cuidar de nós mesmos, ficar em silêncio. Enfim, nos reconectar com nossa essência, com nosso propósito e, para quem tem fé, com o Criador.

Talvez o progresso não seja apenas conseguir fazer em dez minutos aquilo que antes levava uma hora e sim, poder decidir conscientemente o que fazer com os cinquenta minutos que sobraram.

Esse desafio não pertence apenas às empresas, pertence a cada um de nós.

Precisaremos aprender a trabalhar com a inteligência artificial sem entregar a ela nossa autonomia. Usar sua velocidade sem permitir que ela determine o ritmo de nossas vidas. Aproveitar sua inteligência sem deixar de exercitar a nossa escolha.

E utilizar sua eficiência não apenas para produzir mais, mas para abrir espaço para aquilo que nenhuma tecnologia deveria nos fazer esquecer.

Talvez o verdadeiro avanço não seja usar a inteligência artificial para fazer mais. Seja usá-la para termos novamente tempo para sermos mais humanos.

Roseli Sato

Compartilhar

Próximo passo

Pronto para transformar este conteúdo em execução?

Receba um diagnóstico estratégico personalizado para a sua operação.